Violência obstétrica. Precisamos falar sobre isso.

Há muitos anos, o corpo da mulher era acompanhado por saberes de outras mulheres, onde como uma rede, uma cuidava da outra. Afinal, fomos ensinadas que o homem, provedor da casa, não deveria se incomodar com assuntos femininos.

O parto era uma instituição onde somente mulheres eram permitidas de entrar e participar. Eram tratados com naturalidade que são e parteiras vinham ao nosso encontro para nos ajudar nesse processo fisiológico.

Por volta de 70 ou 80 anos atrás começaram a tratar o parto como um evento médico, como algo delicado, que exigia cuidados. Que o melhor lugar para isso era o hospital, porque todos estariam protegidos e amparados pela instituição hospitalar e não à mercê em seus domicílios, sem estrutura. Porque:

  • Vai que a criança morre?
  • Vai que a mãe tenha uma hemorragia?
  • E se o bebê estiver sentado?

Com isso, foi criando-se mitos em relação ao nascimento e o que é e sempre foi um ato fisiológico, passou a ser um evento médico.

Vamos falar um pouco sobre Violência obstétrica?

Leia mais nesse post.

Vamos começar lembrando que há quase 100 anos atrás, mulheres não tinham livre acesso a faculdades, quanto mais a de medicina. Formou-se assim uma junta médica formada por homens que não possuíam o conhecimento do corpo feminino, digamos assim, “a flor da pele”. Tinham o conhecimento básico, baseado na anatomia. Algo físico, nada emocional. Com eles no comando as coisas foram perdendo a naturalidade e os procedimentos passaram a ser padrão. Então onde não tinha necessidade de nada ser feito, começaram a fazer com a justificativa “somos médicos, estudamos para isso e sabemos mais do que vocês”. Longe de mim querer desonrar a profissão medicina. Acho louvável salvar vidas, ter conhecimento do corpo humano como a máquina perfeita que é. Mas não somos só máquina, temos emoções. E  convenhamos, em um ambiente rígido e sob pressão, as emoções não são muito atrativas.

Mas o que eu quero dizer com isso? Eu quero dizer que começaram a fazer procedimentos desnecessários como se fossem necessários. Começaram a tratar o evento parto de forma industrial, onde as coisas tem que acontecer no tempo X senão sua máquina (corpo) está com defeito. Passamos a acreditar que todo o procedimento que éramos sujeitas, era para o nosso bem, para salvar nossas vidas. Afinal, estar grávida era (ou ainda é) sinônimo de fragilidade, atenção ou até doença.

Passamos muitos anos sendo violentadas silenciosamente, achando que o que aconteceu era correto, foi para o nosso bem…mesmo que no fundo (lá no fundinho) sabíamos que algo não estava tão certo assim.

Hoje existe estudos que mostram que não existe indicativos sobre intervenções que nossas mães, avós e talvez bisavós foram sujeitas. Mas porque mesmo assim fazem esse tipo de procedimento? E afinal, quais são esses procedimentos?

Segue algumas condutas prejudiciais, ineficazes ou inapropriadas que deveriam ser eliminadas:

  1. Fazer lavagem intestinal. O próprio organismo libera excreções durante o trabalho de parto. A lavagem deixa a mulher sem controle do seu organismo.
  2. Uso rotineiro de raspagem dos pelos púbicos. Estudos indicam que os pelos pubianos ajudam a não ter infecções após o parto
  3. Infusão intravenosa rotineira em trabalho de parto.
  4. Posição supina (deitada) durante o trabalho de parto e/ou posição de litotomia (ginecológica) durante o trabalho de parto e parto.
  5. Esforços de puxo prolongados e dirigidos (manobra de Valsalva) durante o período
    expulsivo.
  6. Massagens ou distensão do períneo durante o parto.
  7. Lavagem rotineira do útero depois do parto.
  8. Revisão rotineira (exploração manual) do útero depois do parto.
  9. Uso rotineiro de amniotomia precoce (romper a bolsa d’água) durante o início do
    trabalho de parto.
  10. Exames vaginais (exame de toque) frequentes e repetidos especialmente por mais de um prestador de
    serviços.
  11. Clampeamento precoce do cordão umbilical.
  12. Restrição de comida e líquidos durante o trabalho de parto.
  13. Uso liberal ou rotineiro de episiotomia. Corte feito no períneo para aumentar a “passagem” do bebê
  14. Profissional que deita encima da barriga da mulher para agilizar a saída do bebê (Manobra de Kristller)
  15. Cesariana sem indicação clínica ou sem o consentimento da mulher…entre outros.

Também temos a violência de caráter emocional:

  1. Recusa de admissão em hospitais e/ou maternidades
  2. Impedimento da entrada de acompanhante de escolha da mulher
  3. Toda a ação verbal ou comportamental que cause sentimentos de inferioridade, vulnerabilidade, abandono, instabilidade emocional, medo, acuação. Típicas frases como “Para fazer não doeu.” “Faz força.” “Não grita.”
  4. Impedir ou retardar o contato mãe/bebê logo após o parto (vamos falar mais sobre isso, fique ligado no blog).
  5. Impedir e/ou dificultar o aleitamento materno (impedindo a amamentação na primeira hora), afastando de sua mãe, deixando em berçários.

Parto normal não mata. Parto normal não é sofrimento. O que faz ele ser tão antagonizado é a violência obstétrica!

A violência obstétrica também pode acontecer desde a gestação, na consulta pré-natal. E como ela é rotineira nas maternidades, alguns estados já contam com leis ou cartilhas para informar às gestantes. Santa Catarina é um desses estados, onde violência obstétrica é lei.

Pesquisas afirmam que a violência obstétrica pode causar sérios problemas de saúde, desde depressão até a morte materna e/ou fetal. Muitas mulheres que foram violentadas no parto, ficam tão traumatizadas que optam em não ter mais filhos, passam a rejeitar o próprio corpo e a ter dificuldades em relações sexuais. Muitas relatam que é como se sentissem estupradas.

E por causa dessa violência que o índice de cesariana está tão elevado no Brasil. Acredita-se que para ter um parto respeitoso é somente pelo meio cirúrgico. Ledo engano. O parto cesariana é tão violento quanto.

Mulheres, se informem, denunciem! Ligue 180 para violência contra a mulher e 136 SUS.

Veja um documentário contra Violência Obstétrica.

Ale Friese Conradt e Carla Cristina Büttner

Referências:

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